#jesus

Antes de escrever

No metro, com o ecrã aceso e o dedo já pronto, Inês afia um comentário elegante por fora e cruel por dentro. Ao lado, alguém desloca o foco do vídeo e acerta-lhe em cheio no hábito que ela não quer ver

Antes de escrever

No metro, a caminho do trabalho, Inês deslizava o dedo no telemóvel como quem afia uma faca. No ecrã, uma rapariga chorava depois de se enganar em directo, e a caixa de comentários já parecia um tribunal. Inês abriu espaço para escrever uma frase polida por fora e cruel por dentro. Em 2026, basta um toque para transformar a vergonha de alguém em entretenimento. Jesus, sentado ao lado como se viesse de uma manhã normal, não falou do vídeo; falou do hábito. Que ganho há em apontar a falha alheia se isso só serve para não encarar o que está torto cá dentro? Ele deixou claro: a verdade sem humildade vira crueldade, e ninguém ajuda outro a ver melhor enquanto se recusa a olhar para si. Inês apagou o comentário, fechou a aplicação e ficou presa ao reflexo no vidro do metro. A rapariga continuou no ecrã, mas o centro da cena mudou. A pressa de julgar largou-lhe o volante.

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