Quando a vergonha perde o megafone
À saída da escola, Leonor leva o telemóvel colado à mão enquanto o grupo da turma rebenta em notificações sobre um vídeo cruel. Tem um comentário meio escrito e um medo maior: se travar aquilo, pode ser a próxima
Leonor saiu da escola com o telemóvel colado à mão e o estômago apertado. Em 2026, a crueldade também chega em notificações: no grupo da turma, um colega estava a ser triturado por um vídeo editado para o ridículo, e cada resposta puxava outra, como se a maldade precisasse de plateia. Jesus estava no murete junto à paragem do autocarro, a olhar para aquele barulho todo como quem vê por dentro. Ela tinha um comentário meio escrito e o medo de ser a próxima. Então ele deixou a lição simples: no seu reino, força não é esmagar; é ter misericórdia, fazer paz e ficar do lado do que é certo. E se perder likes por não entrar na humilhação não for fraqueza, mas coragem limpa? Leonor apagou o que ia escrever, atravessou a rua e sentou-se ao lado do colega. O telemóvel continuou a vibrar, mas deixou de mandar nela. Naquela paragem, a vergonha perdeu o megafone e a paz ganhou lugar.
#jesus