Quando o amanhã deixa de mandar
Leonor sai do metro em Lisboa com o telemóvel na mão e o saldo a morder-lhe o peito. No café em frente ao escritório, Jesus olha os pombos na esplanada e diz-lhe baixo uma coisa que mexe com o medo
Leonor saiu do metro em Lisboa com o telemóvel na mão e o peito apertado. Em 2026, bastou um olhar para o saldo da conta e para os rumores de cortes no portátil para o mês ficar ainda mais curto: renda, passe, supermercado, tudo a falar ao mesmo tempo. Entrou no café em frente ao escritório já cansada por dentro. Jesus estava ao balcão, a olhar para os pombos na esplanada e para umas flores teimosas a nascer junto ao passeio. Disse-lhe baixo que a ansiedade não alimenta ninguém, só ocupa espaço. E se o problema não fossem as contas, mas o medo a mandar mais do que a confiança? Ele puxou a atenção dela para o que estava mesmo ali: Deus sabe do que faz falta hoje. Viver com justiça e sem pânico não paga a renda por magia, mas tira o medo do volante. Leonor voltou para o open space com o mesmo chefe e o mesmo ordenado. O que mudou foi isto: o amanhã deixou de ser patrão, e o hoje voltou a ter ar.
#jesus